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O Mito da Medusa e a Cultura do Estupro

Atualizado: 20 de out. de 2020

Um mito é uma história, é a produção cultural de um povo, uma narrativa que está na raiz do nosso comportamento atual. Estudar os mitos é indispensável para reconhecer quem somos, eles estão nas bases de um inconsciente coletivo, uma herança psicológica universal, um legado que nos estimulou a construir símbolos, estereótipos, padrões, arquétipos. A construção da mulher na sociedade se dá através de vasta mitologia que desenvolveu uma representação do feminino.

Foi na Grécia Antiga, uma sociedade fundada em cima de uma superioridade masculina, onde a mulher não era considerada cidadã, não tinha acesso a uma educação formal, era vista como inferior intelectualmente, uma sociedade que exaltava um comportamento masculino que hoje chamaríamos de tóxico (agressivo, viril, opressor), onde se produziu muitos mitos, mitos que influenciaram gerações, que colocaram as mulheres em situações de opressão, de violência, de desamparo.


O mito da Medusa é um desses exemplos, ele está impregnado de significados, de estereótipos, que ocupam nosso inconsciente coletivo há milênios.

Medusa era uma moça linda que servia no templo da deusa Atena, ser virgem era uma exigência para tal função. O deus do mar, Poseidon, representando o macho insaciável, viril e autoritário, atacou e violentou Medusa, já que ela negava suas investidas. Abalada, violada, física e emocionalmente ferida, ela pede ajuda à Atena, que a condena por ter despertado o desejo de Poseidon e assim perdido o requisito para servir: a virgindade. Medusa, a vítima de um estupro, é culpabilizada, desacreditada e castigada, Atena transforma a bela moça num monstro condenado a viver só eternamente, pois aquele que cruzasse seu olhar viraria pedra.


Esse mito traz inúmeras características do que chamamos de cultura do estupro hoje em dia. Por cultura do estupro, entendemos hábitos, costumes, ideias passadas de geração em geração, como, por exemplo: culpar a vítima de uma violência sexual devido a roupa que ela vestia, o horário que estava fora de casa, por ter insinuado algo, entre outros. Atitudes que levam ao descrédito da versão da vítima, colocando-a numa posição de extrema vulnerabilidade.

A cultura do estupro tende a justificar esse ato hediondo, através das atitudes realizadas pela vítima, por causa disso acredita-se que apenas 10% dos casos são notificados no Brasil atualmente.

No país acontecem cerca de 180 estupros por dia, em torno de 70% dos casos alguém da família comete o crime e cerca de 53% das vítimas são adolescentes e crianças menores de 13 anos. A violência sexual contra mulher é uma das formas de violência mais temidas, principalmente pela maneira como essas mulheres e meninas são tratadas, com descrédito, desconfiança, humilhação, em alguns casos até mesmo forçadas a se casar com o agressor.


Precisamos romper com esses estereótipos que culpabilizam a vítima e destacar que o único criminoso é o estuprador, chega de colocar nas costas da mulher ou da menina que sofre um ato tão violento, a culpa pela agressão. Nada justifica!


Eu sou Daniela Gobbi Teixeira Bittencourt, historiadora e professora, militante das causas feministas.

@danielagobbi1


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